Todo dia era como um único na vida. Marilia sempre achou que uma vida não seria suficiente para tudo o que gostaria de viver. Fazia mil coisas ao mesmo tempo e nada a satisfazia. Queria mesmo viver mil vidas em uma. Não admitia uma vida normal e não aceitava tê-la dessa forma.
Nascera numa família normal, estudou em colégios normais. Durante sua adolescência pôde mesmo ser como sempre quis. Como num passe de mágica deu um jeito de ser e viver. Aos dezesseis anos acordava ao sol de puro have metal, pela manhã adorava participar de sessões espírita, acabava de descobrir que em suas veias corria sangue cigano. Passava uma parte da tarde fazendo balet clássico e a noite participava de dança de salão.
O tempo foi passando lento, breve e intenso. Agora Marilia percebera que era índia e fez questão de estudar xamanismo. Ocupava seus dias com aula de mergulho, no fundo do mar teve o prazer de viver muitas aventuras, mas como achava tudo muito pouco, o skate virou mais um de seus hobies.
Aproveitava verdadeiramente a vida em cada detalhe, das mais diversas formas que poderia ser vivida. Pensava ser e era feliz. Sempre tinha muitas histórias a contar.
Entrou para uma banda de rock, ficou famosa. Andava em becos e vilas, provando de tudo e de todos. Tinha todos os homens e mulheres que queria, era só desejar e todos caiam aos seus pés. Entrou em crise, desistiu da vida de artista. Abandonou a vida urbana e foi morar numa tribo indígena, passou exatamente dois anos e voltou para a cidade.
Apaixonou-se por um hippie em uma feira de artesanato, vendeu tudo e foi viver em Arembepe, viver de artesanato, paz e amor numa vida de bicho grilo, até que tomou enjôo de tanta tranqüilidade.
Começou a buscar emprego, conseguiu numa multinacional, subiu muito rápido de cargo, comprou casas e carros. Tirava férias explorando todas as belezas naturais brasileiras.
Virou homem, foi romântico e canalha. Apaixonou e se fez ódio. De uma hora pra outra virou bicho, um animal doméstico, com donos, amigos e natureza ao redor.
Tornou-se mulher de rua, prostituta, vendia seu corpo por puro prazer, adorava fazer tudo o que uma mulher normalmente não faria. Parou com tudo e foi morar num convento. Ordenou-se freira, cansou, ordenou-se padre. Suicidou-se, virou alma penada.
E em um belo dia, quando cansara de viver tantas emoções, fechou o caderno, guardou a caneta e num ato mortal jogou seus escritos ao vento.
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